Estende tua mão ao pobre.

No último dia quinze, como já vem fazendo a alguns anos consecutivos, o Papa Francisco nos lembrou dos “anawins de Yhwh”, ou seja, dos pobres de Deus. E como o termo hebraico anawin, remeta-nos também “àqueles que se dobram”, ou seja, os humildes em espírito que colocam toda a sua confiança no Senhor, pobreza e humildade se conjugam na convocação de Francisco. Por um lado, a miséria daqueles que nos expõe suas necessidades mais prementes como chagas abertas por um sistema perverso; por outro, o convite a reconhecermos que diante de Deus, a bem da verdade, somos todos pobres, necessitados de conversão… pois muitos de nós estamos com a barriga cheia ou o espírito inflado pela autossuficiência. Uma convocação inquestionavelmente louvável e necessária, mas, no mínimo estranha e sintomática. Estranha, uma vez que somos seguidores dAquele que não tendo lugar para nascer, viveu a vida sem ter onde reclinar a cabeça, teve como pai um carpinteiro e não um banqueiro ou empresário, deixou como herança a si mesmo nas migalhas de um sagrado pão, dando ainda ordens para servirmos como ele próprio serviu e como se não bastasse morreu entre dois ladrões sentenciado como fracassado e impostor, como nos atestam os Evangelhos. Haveria mesmo necessidade de um dia assim convocado se compreendêssemos que todos os dias a fé assim nos convoca? Não cuidar dos pobres nunca foi e nem nunca poderá ser uma opção; ao menos não uma opção cristã! Trata-se de um imperativo: “dai-lhes vós mesmos de comer”! (Lucas 9, 13).

Confesso meus irmãos: nunca foi tão difícil falar dos pobres, ou falar por eles!!!! Muito rapidamente vozes uni troantes se levantam, dentro e fora da Igreja, para classificar a atenção e o cuidado para com os pobres de fascismo, comunismo, socialismo etc e tal, alardeando aos quatro cantos do mundo que o socorro aos pobres foi uma ideologia plantada no coração da Igreja para fazê-la perecer como uma ONG malsã! É necessário, continuam em seu furor, exorcizar toda teologia da libertação até ao cúmulo de negar a razão de fé de inúmeros de nossos pastores que, compreendendo a sagrada missão do pastoreio junto aos mais pobres e necessitados, replicaram do Evangelho nos exortando no Concílio: As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco em seu coração (GS 1)”.

Há alguns dias, participando de um tríduo em preparação para a ordenação diaconal de alguns irmãos, fiquei edificado por um gesto simples, mas extremamente significativo, e quase já esquecido na Igreja: após a oração final, o celebrante chamou à frente duas senhoras. Uma delas deduzi facilmente quem seria: carregava as vestes litúrgicas do acólito que seria ordenado. A humilde senhora era sua mãe. A outra, simples e humilde, trazia nas mãos uma pequena caixinha. Depois de abençoadas as vestes litúrgicas, o celebrante voltou-se para o acólito, dizendo-lhe que toda a comunidade, mas principalmente os pobres, lhe queriam ofertar um presente: abriu a caixinha e apresentou ao acólito um anel de Tucum. A “senhorinha”, depois da bênção, colocou-lhe no dedo o anel, profetizando um ministério na companhia dos mais empobrecidos e necessitados, e sem dizer absolutamente nada, dizia, com seu gesto, absolutamente tudo: não se esqueça dos pobres do Senhor! Ele veio para servir, não para ser servido!

Fiquei dez dos melhores anos de minha vida no processo formativo do Seminário de Mariana e sou extremamente grato por isso. Sou de uma geração em que homens de esmerada humanidade e dedicação ao Reino e profunda espiritualidade me ensinaram a contemplar Jesus nos pobres e vice e versa, sem medo ou contradições, sem ideologia e com+paixão, fazendo-me ver a incongruência de uma espiritualidade que priorizasse somente a fé, sem o engajamento nas mudanças estruturais injustas, ou priorizasse tão somente as realidades estruturais e materiais tendendo a transformar a Igreja numa ONG. Homens que amaram profundamente a Igreja por terem amado ainda mais profundamente a Cristo, seu fundador, que amou os pobres prometendo-lhes o Reino de Deus. Somente para citar alguns, homens como Pedro Casaldáliga, defensor dos indígenas e marginalizados, adotando como lema de sua ação pastoral: “Nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar; homens como Dom Helder Câmara, que congregou nossos bispos em conferência, defendendo arduamente os direitos humanos; poeta dos pobres e da não-violência; homens como Dom Luciano que morreu fazendo um pedido: não se esqueçam de “meus” pobres! Tantos e tantos mais que marcaram minha vida com um testemunho autêntico de fé. Ensinaram-me que se “pobres sempre os teremos conosco” (como nos ensinou o Senhor em João 12, 8), a fortiori deverá ser permanente também o zelo pastoral para com estes pobres, nossos mestres.

O Papa Francisco, nessa incômoda insistência que nos descentraliza, e que não propõe absolutamente nada de novo do que o próprio Jesus nos propõe, recupere para nós a certeza de que uma espiritualidade autenticamente cristã não poderá jamais propor-se em substituição à fome dos milhares e milhares dos quatro terços da humanidade, nossos irmãos, que passam fome de pão e de fé. Prossigamos, e rezemos pelo nosso Francisco a fim de que Deus o preserve da mira dos que “odeiam a fé” e não aconteça, agora na cidade do Vaticano, o que outrora aconteceu no “fim do mundo” com um pastor que incorporando à sua fé e à sua missão o Concílio Vaticano II afirmava:  “a mais profunda revolução social é a reforma séria, sobrenatural, interior de um Cristão. A missão da Igreja é identificar-se com os pobres. Assim a Igreja encontra sua salvação”. São Oscar Romero, rogai por nós!!!

Diác. Rosbon Adriano

Quero a Misericórdia e não o Sacrifício!

Temos acompanhado nos últimos dias reações as mais diversas acerca do pronunciamento do Papa Francisco sobre certa postura cristã em relação aos direitos civis das pessoas homossexuais e homoafetivas. Reações de julgamentos apressados e distorcidos dentro e fora da Igreja. Desde uma mídia viciada e mal-intencionada (à serviço de uma visão reducionista como geralmente é a própria visão de boa parte das pessoas que fazem parte desse grupo e levantam essa bandeira), passando por leigos e leigas confusos que juraram afastar-se da Igreja por não se verem representados por um Papa assim ou até mesmo padres que, em homilias, vaticinaram a alto e bom tom ser o Papa um herege necessitado de conversão, causando revolta no fiéis presentes que, em parte, abandonaram a celebração revoltados com seus párocos.

Um Papa que, convidando à acolhida e à misericórdia antes que ao julgamento (como fez o próprio Jesus no caso da samaritana ou da adúltera prestes a ser apedrejada), é contestado quase que odiosamente e tratado com inclemência e intolerância, até mesmo entre aqueles e aquelas a quem ele pediu a bênção, antes mesmo de abençoar, no dia em que foi apresentado ao mundo como Papa Francisco. A palavra de Jesus de que no mundo haverei de encontrar aflições (João 16, 33) torna-se real e intensa para o para o Papa do fim do mundo que descobre com sofrimento que o mundo pode ser a sua própria casa, as ovelhas de seu próprio rebanho.

Mas creio que o Papa Francisco não se admira de tais reações, não se intimida ou fraqueja, pois tem sempre diante de si o fracasso e a loucura da cruz e a fidelidade de quem ele nos pediu que olhássemos mais em seu pontificado: nosso Senhor Jesus Cristo. Sabe que com o Mestre foi mesmo bem assim: “este homem acolhe os pecadores e come com eles”! (Lc 15, 2); ou, “se esse homem fosse profeta saberia que a mulher que está tocando nele é uma pecadora” (Lc 7, 39b), enquanto a pecadora lavava os pés de Jesus com as lágrimas, enxugando com o cabelo, beijando-os e lançando neles perfume. Ou ainda: “pode, por ventura, vir alguma coisa boa de Nazaré”?, perguntava-se Filipe, um dos escolhidos, questionando a identidade de Jesus. Não é o que ouvimos hoje: pode, por ventura, vir alguma coisa boa do “fim do mundo?” Nada fácil é compreender que desde a Antiga Aliança, firmada pela Lei, até a Nova Aliança, firmada pelo sangue de Cristo, tudo o que Deus quer é a misericórdia, em primeiro lugar, pois sem ela o sacrifício torna-se uma prática da boca para fora, não envolvendo o coração e, portanto, uma prática não compassiva. Por isso mesmo Jesus, retomando os preceitos da Antiga Lei (Oséias 6,6) nos incita: “ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores!” (Mateus 9, 13). Mas pecadores somos todos, nos confirma a Palavra (!João 1, 8). Mas nosso pecado pode ser ainda maior e à ele somarmos o sermos injustos… inclementes…impiedosos!

Vivemos tempos difíceis! Conciliar uma experiência religiosa cristã autêntica com a expressão contemporânea de uma autonomia baseada unicamente na referência a si mesmo como valor absoluto é uma tarefa complexa, exigente. Tudo e todos parecem operar na única ótica do EU: faço, quero, posso, vou… meu, para mim, comigo e por mim. A vida é minha, o corpo é meu, tenho o direito de ser eu!! Ouvir a voz de Deus mais que a própria voz, assumir o projeto de Deus mais que o próprio projeto, reconhecer-se pecador mais do que auto-justifcar-se torna-se cada vez mais sinônimo de perder a própria autonomia e abandonar as rédeas da própria vida. Ainda assim, é preciso fazer ressoar no fundo da própria convicção a confrontação necessária com a constatação evangélica da experiência do próprio Jesus: “Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua” (Lc 22, 42b). Depois verteu sangue em poros, tamanha era sua agonia, sua angústia por ter compreendido que crer e dar a vida pelos de Deus, sendo-lhe fiel até o último instante, era renunciar a si mesmo por um amor maior! Haverá ainda em nosso tempo amor maior que o EU? Teremos coragem de assumir nossas próprias limitações do que justificar nossas vontades? Lançaremos ao chão as pedras que carregamos nas mãos ou ousaremos insensatamente lança-la na direção da pecadora?

Uma situação real, no que tem de intenção, me fez pensar e acolher a mensagem do Papa Francisco que reflete, na verdade, as intenções do próprio Cristo em termos de uma acolhida misericordiosa: depois de viver quinze anos com uma companheira, num relacionamento estável, M.L perdeu a companheira num acidente automobilístico ficando ela mesma lesionada em uma de suas vértebras, impedida de movimentar-se em seus membros inferiores. A três anos as duas cuidavam de uma criança em processo de adoção. Ao tentar fazer uso dos bens que a companheira havia herdado de sua família e agora deixava, bens que ela mesa também ajudou a expandir, foi-lhe negado com a justificativa que não teria direito algum nos bens. Os familiares da companheira reivindicaram o direito aos bens sem levar em conta a situação atual de M. L. ou a intenção da que havia falecido. Pergunto: exigir algum direito para M. L, na ordem do direito, ou seja, de nossa civilidade, seria trair o Evangelho? Tornar-nos-íamos hereges? Parece que é a essa possibilidade de garantia de direitos que o Papa se referiu quando propôs que a sociedade precisa resguardar tais pessoas a fim de não ficarem expostas a injustiças e preconceitos descabidos. Não estaria aqui a possibilidade de expressarmos o quanto, na prática da civilidade, amar ao pecador, não obstante repudiando o seu pecado, é expressão de misericórdia? Estaríamos dispostos, ao menos a dialogar, ou estaremos obrigados em sã consciência a concluir com o Apóstolo: Para onde iremos, Senhor? Só tu tens palavras de vida eterna”!  (João 6, 68).

Diácono Robson Adriano

Vida e morte: realidades da mesma existência

“Para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada.” Esse trecho, retirado do Prefácio dos Fiéis Defuntos I, pode ser visto em algumas lápides cristãs mundo afora. A relação vida-morte-vida é um dos fundamentos de nossa fé cristã. Para os seguidores de Jesus, não é possível separar esses eventos, e precisamos ser vigilantes para aprender as lições que elas têm a nos dar.

Ainda me inspirando na liturgia, destaco um episódio único da vida: o dia de nosso batismo. A celebração desse sacramento é carregada de símbolos riquíssimos que remetem a Cristo, no qual somos mergulhados, enxertados, configurados.

Conforme o costume em muitos lugares, no caso do batismo de crianças, o rito inicia-se com o bebê nos braços da mãe. Tal como fez Maria em relação a Jesus (Lc 2,22-32), a mulher apresenta a Deus e à comunidade o fruto de seu ventre, de seu do coração. Após consagrar o rebento ao Criador, no fim da celebração, quando a criança já está inserida no corpo de Cristo, ocorre a bênção solene. Reza-se pelo neófito, pelos pais, padrinhos, pelos outros presentes. Nessa hora, novamente a criança está no colo da mamãe. É como se Deus dissesse: “No ventre, no coração, você gerou esta preciosa criança e a consagrou a mim, agora eu a devolvo a você e lhe dou a missão de cuidar dela para mim”.

Existe uma bela relação do batismo com as exéquias (ritos fúnebres). Além da presença da água, com a qual o corpo e o túmulo são aspergidos, há a prece da “encomendação”, quando a família, os amigos e a comunidade entregam, devolvem a Deus a pessoa querida. Um emocionante, não raro difícil, ofertório, pelo qual colocamos nas mãos do Senhor tudo o que aquela pessoa representou em nossa história: as vitórias, as fraquezas, as alegrias, os assuntos interrompidos, as broncas, os frutos de sua missão nesta terra. E o Deus misericordioso acolhe, na vida plena, o filho ou a filha tão amada.

Os vivos e os mortos para o cristianismo

Para o cristianismo, o olhar sobre a vida e a morte costuma ser bem deferente. Quando oramos em favor de alguém que já se foi, não estamos nos referindo a mortos. Segundo nossa fé, trazemos ao coração pessoas vivas, irmãos e irmãs que estão em outra realidade (veja novamente a frase litúrgica a abrir este texto).

Há, por outro lado, muitos “mortos” perambulando por aí. À primeira vista, parecem até vivos e “bem de vida”. Estão de pé, conversam, comem e bebem, até compram e vendem. Entretanto, a todo instante, maquinam um modo de promover a violência, a injustiça, a discórdia; enfim, mais morte. Estar nas trevas é a morte.

Podemos também trazer dentro de nós experiências alternadas de morte e de vida. Quem nunca se deparou, já no fim do dia, com um arranhão ou um hematoma no corpo? Onde nos ferimos? Por que nem notamos nossas próprias feridas? Qual de nós presta atenção à própria respiração, sentindo o prazer de nutrir-se do sopro vital nos dado como graça? Onde estávamos em nossos instantes de morte e vida? Quantas vezes, pelo pecado, nós nos afastamos de Deus? Como o joio e o trigo, portamos a vida e a morte, ciscos e travas, sempre mais fáceis de apontar quando é no outro.

Não é demais recordar: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10b). Não interessa tanto ou quanto tempo estaremos por aqui, mas o como, mesmo nos arranhões de nossos dias.

Pendências

Na década de 1990, ajudei a produzir uma reportagem sobre a morte. Não me estranhem, mas confesso: foi um dos trabalhos mais marcantes de minha carreira profissional. Uma pena, mas não recordo bem os detalhes dessa matéria, mas ficou marcada para mim uma pergunta feita por um tanatólogo, profissional especializado no fenômeno vida-morte: se eu receber a notícia de que morrerei daqui a quinze minutos, como aproveitarei meu tempo restante?

Segundo o estudioso cujo nome se perdeu em minha memória após tantos anos, se uma pessoa tem o desejo de resolver várias pendências emotivas e práticas em intervalo tão curto, significa que ela vai morrer mal, porque viveu mal. Morre bem quem vive bem, conforme nos disse naquela ocasião. Como esquecer essa máxima? Quanto ensinamento a morte pode nos dar!?

A Sagrada Escritura, com destaque para os Evangelhos, sempre nos chama à vigilância. Devemos estar acordados e bem preparados para o encontro com o “noivo”, o “senhor da vinha”, o “patrão”, o “ladrão”, Aquele que chega sem avisar. Precisamos ter combustível suficiente para nossas lâmpadas, o óleo da experiência pessoal e intransferível.

Preocupação pastoral na pandemia

A elaboração do luto é outro aspecto da vida-morte-vida que não pode ser ignorado. Em um contexto industrial e urbano como o nosso, e mesmo em nossas comunidades de fé, há uma tendência em jogar para debaixo do tapete a carga da morte. Quanto crucifixo não foi trocado por uma imagem de Jesus já ressuscitado? Um modismo questionável não somente do ponto de vista artístico, litúrgico e catequético, mas que pode nos levar a ocultar outros crucificados e cruzes da vida, inclusive a implacável dor de uma perda.

Pelo olhar antropológico, precisamos, sim, de ritos fúnebres, de viver o luto. Nesses dias, é melhor o roxo ao dourado. Embora devamos testemunhar a vitória da vida sobre a morte, como manda nossa mais básica fé, necessitamos dessa pausa.

Como ministro ordenado e próximo à realidade eclesial de um querido povo, admito que estou apreensivo por muitas famílias não poderem manifestar o luto nestes difíceis tempos de pandemia. As pessoas falecidas em decorrência da covid-19 tiveram de ser sepultadas às pressas, sem os devidos ritos que cada cultura reserva a seus mortos. As despedidas, mesmo para quem partiu por outros motivos, são breves, superficiais, praticamente à beira do túmulo.

Teremos de buscar uma solução pastoral, ainda que seja preciso esperar um pouco. Visitas às famílias, escuta, dias de oração e homenagens, criação de memoriais, parceria com profissionais… Alguma coisa precisará ser feita em nossas comunidades. Ciclos precisarão ser encerrados e pensadas muitas feridas ainda latejantes. Como é difícil compreender o glorioso Domingo da Ressurreição sem a Sexta-Feira da Paixão!

Dedico este texto a meu sogro, o sr. Moacir Alberto de Oliveira, falecido em 25 de outubro último. Bendito seja Deus por sua vida!

Artigo publicado originalmente no blog da Província Brasil Norte da Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS): blog.ssps.org.br

Alessandro Faleiro Marques

Diácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa, editor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.

Santidade, Perfeição ou Misericórdia?

A inspiração para o texto dessa semana vem com a pergunta de um jovem crismando, o Teófilo, mais uma vez, o amigo de Deus, como seu nome significa. Num encontro virtual, mas de forma bem realística, ele me questionou: – O que Deus quer de nós, diácono? Quer que sejamos santos ou que sejamos perfeitos?  Tem jeito isso, “véi”?!

Tem jeito sim Teófilo, e significa algo bem mais simples do que suspeitamos. A questão do nosso crismando é pertinente, sobretudo se nos voltarmos para a Palavra de Deus e tirarmos dela nossa fonte de inspiração. Por ela Deus nos admoesta: “Sede santos, porque eu sou santo”! (Levítico 11, 44). E essa admoestação foi confirmada pelo Apóstolo Pedro que assim se expressa: “‘Sede santos, porque Eu Sou santo!’ … Vós, no entanto, vos santificareis e sereis santos, pois Eu Sou Yahweh, o SENHOR vosso Deus” (1Pedro 1, 16), fazendo menção aos preceitos veterotestamentários, ou seja, do Antigo Testamento. Dessa forma, antigo e novo testamento nos apresentam o mesmo preceito: a santidade.

Mas interveio Teófilo, inquieto: – Mas no evangelho de Mateus está escrito – “Sede perfeitos como vosso Pai é perfeito”!  (Mateus 5, 48), diácono. E foi logo compartilhando a tela, mostrando-nos o texto como se lê para que não tivéssemos dúvidas.  – E então, é para sermos santos ou perfeitos?   

Coloquei ainda mais lenha na fogueira quando, ao invés de responder como ele queria, fiz outra observação, mas indicando agora o evangelista Lucas, que em algumas traduções não admoesta nem à santidade e nem à perfeição, mas à misericórdia!! Lemos: “Lemos: Sede misericordiosos como vosso Pai é Misericordioso!” (Lucas 6, 36). Ainda mais perplexo Teófilo se expressou: – Ih, agora lascou!!!!! É para ser santo, perfeito ou misericordioso? Aí deu ruim diácono!!!

Depois que rimos um pouco da “saia justa” na qual Teófilo se encontrava, fiz uma provocação: E se não precisássemos escolher entre um dos preceitos? E se ao invés de ou santidade, ou perfeição, ou misericórdia, estivéssemos sendo admoestados a sermos santos, perfeitos e misericordiosos? E se o projeto de Deus levasse em conta as três realidades?  Talvez seja essa a postura mais adequada.

Para tanto, teremos de partir do menor e mais importante versículo bíblico. Menor em extensão, mas absolutamente talvez o mais importante por ser aquele que define o ser mesmo de Deus: sua santidade, sua perfeição, sua misericórdia! Eis o versículo: “Deus é amor”! (1 João 4, 8b).  E todo aquele que ama mostra que vem de Deus e está com ele, pois no versículo anterior ainda lemos que “o amor vem de Deus”.

Em seu amor Deus nos destinou para sermos santos, que etimologicamente sugere ser separado, consagrado, posto à parte, como que preservado, uma porção escolhida. A santidade que Deus espera de nós é não nos conformarmos (mente e coração) com as coisas deste mundo, seus esquemas injustos e sua maldade, mas agirmos como filhos da luz. Para isso “ele nos criou com bênção espirituais em Cristo e nos escolheu nele antes ad criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis, diante de seus olhos”! (Efésios 1, 2-4). O amor, pois, nos destinou à santidade.

Esta condição de santidade nos coloca no mundo de forma diferenciada, capazes de romper com o ciclo da violência e do ódio pelo vínculo do amor. Somente pelo amor compreendemos que não se trata de sermos perfeitos no sentido de não possuirmos limitações e fraquezas, mas no sentido de vivermos a perfeita ação de amar, a Deus em primeiro lugar e por extensão ou consequência aos irmãos e irmãs. Trata-se, antes, de sermos perfeitos no amor: “No amor não há medo. Antes, o perfeito amor lança fora todo medo … e quem tem medo não é perfeito no amor”! (1 João 4, 18).

Quando compreendemos esta nossa missão de perfeição no amor, compreendemos igualmente que a única expressão realmente válida de amor é a misericórdia, que nos ensina a olhar-nos, olhar os outros e ao mundo com o coração de Deus revelado no coração sagrado do Filho que nos deu a máxima expressão de amor do alto da cruz: “Pai, perdoai-lhes, eles não sabem o que fazem”! E antes disso, para que não tivéssemos dúvida alguma de que a misericórdia é a autêntica expressão do ser de Deus, nosso Pai, nos ensinou: “todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequenos, foi a mim que o fizestes”! (Mateus 25 40b). O que fizeram, perguntar-nos-íamos? Agiram com misericórdia.

Pois é meu caro Teófilo! Vês como não só é possível como é esta nossa missão. Estar neste mundo, mas com ele não se conformar; sermos perfeitos no amor, jogando fora todo medo; agindo com misericórdia, pois não podemos dizer que amamos a Deus, se desprezamos nossos irmãos. Deus, com seu Espírito, nos confirme sempre em seu amor!

Diácono Robson Adriano

robsonfil@gmail.com

Peça à mãe que o filho atende!!!

A senhora Maria entrou apressada na sala de espera do doutor Jésus, cardiologista famoso no pequeno vilarejo chamado Cordisburgo, a cidade do coração! Médico muito requisitado por ali devido amplo conhecimento que tinha em matéria do coração, tanto pelo que aprendeu na faculdade (afinal, coração era sua especialidade) e mais ainda pelo que aprendeu com a vida (já era quase um centenário naquele pequeno vilarejo). A sala de espera estava cheia. Muita gente sem horário marcado tentando uma “brecha” na agenda do doutor. Entretanto, a senhora Maria estava tranquila: tinha conseguido um horário com o doutor. Depois de muitos dias tentando em vão, e quase já desistindo, uma amiga interviu e ali estava ela. Não demorou muito para ser atendida. Como de costume, com um sorriso largo e cativante no rosto, o doutor fê-la sentar-se carinhosamente e já foi perguntando: – “Em que posso ajudar, dona Maria?”  Durante toda a consulta, entre dizer os seus sintomas e entre ouvir a opinião do doutor, dona Maria incomodava-se com uma pequena imagem de Nossa Senhora dos Remédios que ficava na parede à sua frente, num oratório a ela dedicado. Não se aguentando, quase ao final da consulta, perguntou ao doutor: “- quem cura a doença é o médico ou a mãe do médico doutor?”, apontado para a sacra imagem!!! Mantendo ainda o mesmo sereno semblante e sem se livrar do cativante sorriso, o doutor lhe dirigiu uma observação: “- Como a senhora pode ver, os meus horários estão todos cheios! O horário da senhora mesmo, por exemplo, só consegui diminuindo meu horário de almoço!” Interrompendo o doutor, foi logo disparando a dona Maria: “- Muito obrigado, doutor! Minha amiga Izabel é que marcou a consulta para mim.” No que continuou o doutor: “– Sim, eu sei! Agora, a senhora é que não sabe que a dona Isabel, sua amiga, é muito amiga de minha mãe. Ela pediu à minha mãe o favor de interceder junto a mim por um horário para a senhora!! Como eu podia negar um pedido de minha mãe, não é mesmo? É como falamos por aqui dona Maria: Peça à mãe que o filho atende! Jesus é o remédio que todos precisamos e quem no-lo deu foi Maria, nossa terna mãe!

Nas famílias mais tradicionais ainda é comum vermos nas paredes da sala um quadro com o sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria, ladeados. Dois corações inseparáveis, unidos pelo mesmo amor a Deus. Duas fornalhas ardentes de caridade alimentadas pelo fogo do divino Espírito; fogo do divino amor. Um, a fonte viva que jorra para a vida eterna; o outro, manancial alimentado pela divina fonte. Os dois corações pulsam no ritmo do mesmo amor; um sagrado, o outro, consequentemente, imaculado.

No mês junho, dedicado ao coração sagrado de Jesus e ao imaculado coração de Maria, compreendemos a intenção da Igreja em sensibilizar nossos corações para a importância da maternidade espiritual de Maria, quando a recebemos por Mãe ao pé da cruz, tendo nos representado o discípulo que o Senhor amava e que escutou de sua boca: “Eis aí tua mãe!” (João 19, 26-27), tendo-a recebido por mãe desde então. Mais uma vez testemunhamos não haver competição alguma ou rivalidade entre esses divinos corações!!!

Estas cosias aprendidas desde nossa tenra infância só são bem compreendidas se acalentadas mais pelo afeto do coração, como Maria fazia, do que pela certeza da razão, como muitas vezes os fariseus tentavam fazer, mas acabavam se autojustificando ao invés de crer. Os afetos do coração podem caminhar juntos com a segurança da razão se ambas forem regradas com a sabedoria da fé que se abre para a revelação de Deus.

Foi assim que um amigo meu, pastor evangélico, depois de uma longa caminhada de amizade que cultivamos sem nos digladiarmos por questões doutrinais, pediu-me para apresenta-lo uma única razão bíblica que atestasse que a “historinha” da dona Maria pode ser levada a sério e de que, de fato, se pedirmos à Mãe de Jesus, ele nos atende. Então conversamos longamente sobre as bodas de Caná e a primeira manifestação pública de Jesus em relação aos seus milagres. Depois de todo o diálogo entre Maria e Jesus, do pedido de Maria intercedendo pelo casal e de ouvir de Jesus que a hora dele, fazendo menção ao mistério da cruz, ainda não havia chegado, e esclarecendo a sua relação com Maria no que diz respeito à hora derradeira, é impossível não compreendermos o que ela disse aos serviçais: “- Fazei tudo o que ele vos disser!” E Jesus obedeceu, a água transmutou-se, o vinho transbordou, a festa continuou. E obedeceu não como um subordinado, mas com uma obediência afetiva, amorosa, cuidadosa. Obedeceu porque compreendeu que do coração imaculado de sua mãe só aprendera, nesta vida conosco partilhada, o que depois colocou em prática: “eis aqui, a serva do senhor. Faça-se em mim segundo a vossa vontade!” (Lucas 1, 38). Aprendendo humanamente de sua mãe, o Senhor nos disse: “Eis que vim para servir, não para ser servido!”

Mãe e Filho tinham, assim, a mesma missão: “Aqui estou [aqui estamos] para fazer [para fazermos] a tua vontade”! (Salmo 40(39), 8).

                                                                                                Diácono Robson Adriano

Deus, amigo da vida!!!

Lembro-me bem e com todo afeto de meu coração daquele dia. Visitávamos a médica para fazermos o nossa primeira ultrassonografia! Estávamos ansiosos para tentar decifrar, nas imagens distorcidas, o contorno de nossa branca flor da alegria (significado do nome de nossa filha, Yasmin Letícia). Na cumplicidade que assume a vida como um DOM e um COMPROMISSO seguíamos cada curvinha ainda indefinível a olhos não iniciados na arte médica. Mas a doutora prosseguia, escrutinando cada pedacinho de gente! Foi quando, atentos, fomos surpreendidos por uma sonoridade incomum: intensa, forte, rápida e pulsante. – Estão ouvindo? – Perguntou a doutora! – É o coraçãozinho da filha de vocês! Para nós, pais de primeira viagem, uma verdadeira sinfonia, tocada pelos acordes sublimes do amor, na grande orquestração da vida, composta por Deus em seu amor. – E ela está medindo cerca da metade de um grão de arroz! Continuou a doutora. Um coração já batendo numa semente de gente do tamanho de meio grão de arroz! Quanta vida! Quanto milagre! Se em nossa limitação e pequenez humana nos deslumbrar assim pela força de uma vida desabrochando, de um rebento florindo, quanto mais Deus que afirma: “Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia; antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado”! (Jeremias 1, 5). Poderia ser d’outra forma para um Deus proclamadamente “amigo da vida”? (Sabedoria 11, 26b). E conhecendo-nos desde sempre em eterna compleição, amou-nos e consagrou-nos neste amor para sermos dignos do direito sagrado à vida, desde que gestados, até o dia em que completarmos nossa missão.

Mas numa sociedade adoecida demais, solapada por todos os lados pelos contra-valores que minam pouco a pouco o coração dos seres humanos, vamos esmorecendo na esperança, amargurando no desafeto, azedando nas afeições, exorcizando, assim, a gratidão e a alegria do coração. Nessa sociedade do cansaço, da agitação sem pausa, da descontração sem alegria, do trabalho sem vocação, da gritaria sem harmonia, da tolerância sem simpatia, do toque sem a carícia, dos milhares de seguidores, mas sem muita companhia… vai crescendo o número dos que, sob o pesado fardo de um amor não encontrado, são engolidos pela “desrazão” e olhando para um abismo sem fim, não suportando a dor que desaprenderam a contemplar na e pela cruz, rompem com a sagrado liame do viver, ou o impedem àqueles sem voz e ainda sem vez. E seríamos capazes de dizer que isso, assim posto, nada conosco tem haver? Lavaremos as mãos? Apenas ousaremos ajuizar sem compaixão e sem verdade?

Nesta semana nacional pela valorização da vida, e extensivamente em referência ao dia do nascituro, ou seja, aquele que está sendo gerado ou concebido mas que ainda não nasceu, tomemos consciência do afetuoso clamor que sai do coração de Deus: “quantas vezes quis ajuntar os teus filhos como a galinha abriga a sua ninhada debaixo das asas, mas não quisestes! Eis que vossa casa ficará deserta. (Lucas 13, 34b-35). Façamos a parte que nos cabe na difícil missão de minorar os sofrimentos e angústias de tantos que, com os corações desertos, magoados, frios e sem vida, ferem a si próprios num clamor desesperado pelo fim do sofrimento. Ou ainda, a missão de amar a vida acima de tudo, haja o que houver, e não consentir que a vida gerada no ventre, não tenha o direito de nascer, de ter a possibilidade de aprender O “amor tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”! (1Cor 13, 7).

E para você, quando tudo lhe parecer sem cor e sem tom, e a dor lhe parecer consumir, como já mostrei aqui em outra ocasião, não se esqueça: 1º. Creia em Deus. Um crer que, mais que sentir, entregar-se crendo que o universo inteiro tem um propósito e que o sofrimento faz parte desse propósito; 2º. Deus não está distante. Revelou-se em seu Filho e despertou nossos corações para o verdadeiro amor. E não há nada maior do que este amor; absolutamente nada. Acredite, nada mesmo.  E com este amor, Deus conquistou algumas pessoas para si, e consequentemente, para o bem: confie em alguém, amigo de Deus! Nunca guarde a dor só para si mesmo(a); desabafe, converse, confidencie e permita que este alguém te ajude; 3º. Nunca deixe de fazer o bem, ainda que com extremado sacrifício. O bem é o único capaz de fazer-nos enxergar além de nós mesmos e de nossa dor.

E lembro-me da canção que cantávamos para nossa pequena. Tenho a impressão de que a verdade que ela desvela é a mesma verdade desvelada do coração de Deus por nós: “Floquinhos de algodão misturam-se no azul do céu. Folhas verdes, árvores, pássaros, montes. Tudo mostra quão bonito é o que Deus criou. Tudo mostra quão bonito é o que Deus criou. Você também faz parte dessa criação, como obra bela, obra prima, que Deus, o bom Deus me (nos) deu, meu (nosso) grãozinho de ouro (bis). Abelha faz o mel, o passarinho canta. A árvore com o fruto alimenta o homem. Tudo é sinal do amor de Deus por cada um de nós. Tudo é sinal do amor de Deus por cada um de nós. Você também, com o seu jeitinho de ser, é para mim, concretamente, sinal do amor de Deus, meu (nosso) grãozinho de ouro…

Diácono Robson Adriano

Do virtual ao real, Deus nos ampara em seu amor!

A noite já ia adiantada, engolindo o dia e trazendo consigo o cansaço de mais um dia e a necessidade do merecido descanso. Já ensaiava a oração das completas, convocado pelo hino – “Agora que o clarão da luz se apaga, a vós nós imploramos, Criador: com vossa paternal misericórdia, guardai-nos sob a luz do vosso amor!” – quando fui interrompido pelo telefone. Como o número não fora identificado, relutei em atender, mas decidi fazê-lo uma vez que só iniciava a oração da noite e poderia recomeça-la sem problemas posteriormente. Além do que, às vezes é preciso saber deixar Jesus (na oração) para encontrar Jesus (na vida). Identifiquei rapidamente a voz de uma amiga, assim que a ouvi me perguntando se eu estava bem! Antes mesmo de me deixar respondê-la, já foi logo chorando e desabafando: “não estou bem não, meu amigo! Acabei de perder meu companheiro para um câncer no pulmão! Como se não bastasse, também testei positivo para o COVID 19! Estou em outro estado, e não encontrei ninguém que pudesse sufragar por mim e comigo a alma dele. Pensei em você e se poderia valer-nos nesta hora, ainda que virtualmente. Isso não importa! Ele sempre teve muita fé, eu também tenho e para Deus não há distâncias ou isolamento. Posso contar contigo?”

Alegrar-se com os que se alegram e chorar com os que choram, (cf. Rm12, 15) foi o que são Paulo nos ensinou, depois de ter aprendido com o próprio Jesus. Marcamos, então, as exéquias para um pouco mais tarde. Era a primeira vez que me vi sendo solicitado para o cortejo fúnebre de um falecido de forma VIRTUAL!! O falecido era real, a circunstância real, o sofrimento da amiga real e mais real ainda a sensação de abatimento devido a tanta tribulação; a tristeza era real; o vírus da morte era real, mas também real a fé e a certeza de que, não obstante a virtualidade da forma da celebração, a REALIDADE do amor de Deus fecunda toda dor e toda tristeza, nos amparando sempre.

Carregamos nosso tesouro em vasos de argila, tamanha é a fragilidade de nossa humana condição. (cf. 2 Cor 4, 7). E se não permitirmos que nossa fé fecunde o chão batido de nossos sofrimentos e dores, atolaremos na angústia, no desânimo e destruiremos o sentido de viver!! Pois a angústia sufocará a esperança, o desânimo nos deprimirá e chegaremos à conclusão que não valerá mais a pena viver!!! Mas CREMOS e ousamos professar nossa fé contra toda desesperança. Embora em tudo sejamos atribulados, não somos, esmagados; embora perseguidos, não somos desamparados; embora abatidos, não somos destruídos. Compreendemos que “sem cessar trazemos em nosso corpo a agonia de Jesus a fim de que a sua vida também seja manifestada” em nós. Por isso mesmo não perdemos a coragem e estamos sempre cheios de confiança. (2 Cor 4, 8-10;16. 5, 6)

Por isso mesmo, cada instante e circunstância deve ser aproveitado como se fosse o primeiro, o único e o último! É como nos diz a canção, Verdades do Tempo, É preciso ofertar o amor mais sincero, o sorriso mais puro e o olhar mais fraterno. O mundo precisa saber a verdade: passado não volta, futuro não temos e o hoje não acabou. Por isso ame mais, abrace mais, pois não sabemos quanto tempo temos pra respirar. Fale mais, ouça mais. Vale a pena lembrar que a vida é curta demais!” Devemos degustar a vida, em seu dulçor e sabor, com todo afeto e ternura. Esta intensidade de afeto é a única coisa que, como o amor, jamais passará e nos permitirá, aqui nesta terra, nesta vida, não sucumbirmos aos desamores e desesperanças, bem como na outra vida nos abrirá o coração de Deus em eternidade. Essa é a sabedoria do tempo presente vivido como dádiva em todas as decisões, todos os projetos e considerações! E essa sabedoria nos faz compreender que, embora seja legítimo lágrimas e choro em toda morte, elas brotam do afeto que nos une uns aos outros e estão carregadas de amor. Bem assim mesmo fez Jesus quando chorou a morte de seu amigo Lázaro!

Enquanto escrevia este artigo fui solicitado ainda duas outras vezes para responder à mesma realidade do companheiro de minha amiga, embora não virtualmente. Se juntam às mais de cento e quarenta mil pessoas acometidas pelo vírus nesta pandemia! Não podemos permitir que tais números só nos remetam a uma triste estatística, que de tantos, nos acostumamos com a notícia que nem mais tristemente a recebemos. Por trás de todas elas há histórias sem fim que nos remetem à nossa condição. Por essas pessoas que ficam na companhia da ausência e da saudade, rezamos: “Deus do afeto e do afago; companheiro na vida e na morte. Teu amor fiel por nós não termina nunca. Nosso choro pode até se prolongar por toda a noite, mas tu nos restituis a alegria assim que o dia amanhece. Toca-nos com a tua graça sanadora para que nossa vida seja restaurada e possamos assim viver nossa vocação como um povo ressurreto! Amém!”(CEBI)

Diác. Robson Adriano

Espiritualidade do Avental

Certa vez aproximou-se do Senhor um escriba, talvez motivado pela multidão que circundava o Senhor e pelos relatos dos muitos feitos que eram atribuídos a Jesus, e declarou com toda empolgação: Mestre, eu te seguirei para onde fores!! (Mateus 8, 19). Ao olhar aquele homem e ouvi-lo em seu posicionamento, o Senhor, sempre com muita acuidade espiritual, e amando-o em verdade como sempre fazia, percebeu que aquela motivação inicial pudesse fazer o escriba ter uma visão deturpada do discipulado, do seguimento, uma visão mais romântica do que a realidade na verdade o apresentaria. Lembremos que os escribas eram homens letrados, versados nas Leis e intérpretes da Palavra; conhecedores das escrituras e autoridade na arte da hermenêutica bíblica. Portanto, eram certa referência importante nas comunidades israelitas. Como diríamos nós, talvez ele pensasse estar trocando seis por meia dúzia; trocando uma posição de destaque por outra ao lado daquele homem que curava, reunia multidões, multiplicava pães e peixes, expulsava demônios, dominava ventos e tempestades, congregava discípulos, pregava com autoridade para milhares, enfim, tornava-se um “mito”! Quem estivesse com ele (talvez pensasse o escriba) certamente faria parte da porção dos privilegiados!!!

Pois bem, olhando para o escriba respondeu Jesus: “As raposas têm tocas, e as aves dos céus seus ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde repousar a cabeça”! (Mateus 8, 20). Uma resposta que, de certa forma, propunha um choque de realidade àquele que empolgadamente se dispunha a seguir o Mestre, independentemente para onde fosse. Penso que toca e ninho, nestes termos, podem sugerir aconchego e proteção. Metáforas de um lugar que é referência de identidade e segurança. Transpostas para a realidade humana, convertem-se em casa, lar, família etc. Parece que com o choque de realidade, Jesus queria provocar naquele escriba, acostumado a escrever, transcrever as Leis e a interpretá-las, a partir da referência segura de uma tradição, a real situação dos que se põem a caminho, em seu seguimento. Mostrava ao escriba que segui-lo significava abrir mão das seguranças pessoais (quer de bens materiais ou privilégios tantos) e viver a mística do serviço: “Eu vim para servir, não para ser servido!!” E um tipo de serviço que, expressando-se como dom-de-si ao cuidado e socorro das necessidades do outro (necessidades espirituais e/ou materiais), implica também, e quase sempre, senão sempre, o sofrimento, a perseguição, incompreensões e riscos, pois o próprio Mestre nos ensinou não haver ressurreição sem cruz! Os que tentam, perdem-se em atalhos que não permitem chegar ao destino: a edificação do Reino do Amor, também chamado Reino de Deus.

Não sem razão, chamaram também a mística do serviço de “Espiritualidade do Avental” (Frei Patrício Sciadini). No relato bíblico da cena do lava pés (João 13, 1-17), fica claro que Jesus, depois de tirar o manto, atou uma toalha à cintura (ao modo de um avental, pois depois deu-se a si mesmo de comer a nós) lavou os pés de seus discípulos, depois colocou novamente o manto e, seguindo para o lugar onde estava, proclamou: Vocês me chamam de Mestre e Senhor, e dizem bem, pois EU SOU! Portanto, se eu assim o fiz, façam vocês também o mesmo. Dei-vos um exemplo a fim de que, assim como eu faço, vocês também o façam”!  Detalhe: o relato do Evangelho não diz que o Senhor retirou da cintura sua toalha, seu avental. Neste instante, em nome do EU SOU, Deus conosco, Jesus “sacramentalizou” o serviço como o sinal permanente da doação de si à edificação do seu Reino de justiça, paz e amor. E assina posteriormente este testamento, não com as letras da Lei, que o escriba tanto entendia, mas com seu sangue na cruz, na entrega da própria vida doada como máxima expressão de quem ama e é fiel ao Pai. Dessa forma, todo cristão, seguidor do caminho do Cristo, que, não renunciando a cruz, perfaz o caminho do discipulado pelo serviço, é sinal visível da promessa feita por Cristo de estar conosco todos os dias até o final dos tempos. Pelo serviço, tornamo-nos alimento de esperança a quem tem fome do Reino de Deus.

Mas esta lição nunca foi de fácil assimilação para os Apóstolos e discípulos da primeira hora, nem para nós que ocupamos o lado de cá destes tempos que são os últimos. Não raras vezes o Mestre insistia que entre os seus discípulos, e insiste que entre nós cristãos, não devia sobressair a lógica do privilégio, do quem é melhor, das comodidades e regalias da vida, mas pela lógica da Espiritualidade do Avental; de uma vida sacramentada pelo serviço e pela doação.  

Assim, parece-me que Jesus quer nos educar na fé: não há maior prova de amor do que dar a vida por quem a gente ama. E se amamos a Deus, dar nossa vida a Ele significa, como o Filho nos ensinou, servir sempre e morrer em nome do amor e por amor se preciso for. Somente assim, o Espírito Santo encontrará em nós um coração manso e humilde no qual Deus possa entrar, fazer sua morada, e amar-nos como filhos no Filho!

Diácono Robson Adriano

A devoção mariana em tempos de pandemia

Certamente essa será uma das cenas mais vivas na memória de todos os católicos que estão vivendo estes dias de pandemia do novo coronavírus: um homem, sozinho, atravessa uma praça. Esse homem, o Papa Francisco, no dia 27 de março deste ano, atravessou sozinho a Praça de São Pedro, no Vaticano, para rezar diante do Crucificado e do ícone da Mãe de Deus.

Foto: Vatican News

Por Frei Jonas Nogueira da Costa, OFM

Talvez o que mais tenha nos tocado é o modo como nos identificamos com esse homem. Também nos sentimos sozinhos diante desta pandemia. Também nos sentimos atravessando um momento de nossa história em que olhamos para as pessoas que amamos, para a sociedade e para nós mesmos e percebemos um entardecer, um profundo entardecer em nossos corações. E esse homem, que sozinho atravessa a praça, traduz esse sentimento com as seguintes palavras:

“‘Ao entardecer…’ (Mc 4,35): assim começa o Evangelho, que ouvimos. Há semanas, parece que a tarde caiu. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo de um silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos. À semelhança dos discípulos do Evangelho, fomos surpreendidos por uma tempestade inesperada e furibunda. Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo importantes e necessários: todos chamados a remar juntos, todos carecidos de mútuo encorajamento. E, neste barco, estamos todos. Tal como os discípulos que, falando a uma só voz, dizem angustiados: ‘vamos perecer’ (cf. 4,38), assim também nós nos apercebemos de que não podemos continuar estrada cada qual por conta própria, mas só o conseguiremos juntos.”

E, em sua prece, ele reúne todos os fiéis e os faz olhar a imagem de Jesus Crucificado, olhar para Aquele que “assumiu nossas fraquezas e as nossas dores”, que “por seus ferimentos fomos curados” (Is 53,4-5). Também conduz nosso olhar à Mãe de Deus, invocada como Salus Popoli Romani (Salvação do Povo Romano). As imagens de Jesus Crucificado e de Maria alcançam o mais profundo de nós mesmos e nos incutem coragem. Coragem de atravessar essa praça vazia de nossos dias.

Queremos, neste artigo, refletir sobre a forma como a devoção mariana nos ajuda a viver, rezar e meditar nestes dias em que somos ameaçados pelo novo coronavírus. A Igreja sempre considerou a intercessão de Maria como um importante elemento de sua fé. Por isso, vejamos como isso é expresso nas três orações marianas mais significativas de nossa devoção e a atualidade de suas expressões piedosas.

Sub tuum praesidium

A mais antiga oração mariana é denominada pelas suas primeiras palavras Sub tuum praesidium (À vossa proteção). Sua composição é, possivelmente, proveniente da região do Egito (Alexandria), datada por volta do século III.

Sua maior importância no campo do dogma cristão é a expressão Theotokos (Genitora de Deus), que nos revela o modo como a comunidade professa sua fé no mistério de Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, gerado no ventre de Maria. O título antecede ao Concílio de Éfeso (431) que, desde então, ratifica essa expressão mariana dentro de uma perspectiva cristológica mais ortodoxa.

Contudo, o que queremos ressaltar é o contexto dessa oração. Pesquisas nos indicam que ela foi composta em tempos em que a comunidade cristã estava ameaçada por um grave perigo e se refugiou sob a proteção da Mãe de Jesus. Desse modo, encontramos uma expressão de confiança dos fiéis que esperavam ser atendidos pela Virgem Maria (“não desprezeis as nossas súplicas”) em sua situação de profunda fragilidade (“livrai-nos sempre de todos os perigos”).

Encontramo-nos num contexto muito semelhante. Tanto no que concerne à contaminação do coronavírus, quanto em relação aos desafios que o distanciamento social provoca. Num país como o Brasil, em que a corrupção política empobrece todo um povo, um dos setores em que mais percebemos seus efeitos nefastos é na área da saúde pública. A limitação de leitos hospitalares disponíveis, escassez de respiradores artificiais e de profissionais da saúde levam esta situação a um patamar ainda mais preocupante. Sem contar que o distanciamento social, medida sanitária necessária para a não propagação do vírus, traz consigo desafios de ordem emocional, econômica e social. Contudo, talvez o maior perigo que se manifesta diante de nós, relacionado à pandemia, é a forma como algumas pessoas (políticos de um modo particular) e instituições priorizam a economia em detrimento de vidas. Gerar rendas é mais importante para uma elite que salvar vidas. Essa mentalidade e sua aplicação são muito mais nefastas que o próprio vírus, pois a pandemia vai passar, mas o efeito do pecado da ganância e do pecado da omissão, por parte de uma grande parcela da população, gera dor, sofrimento e morte. Como corrigir isso? Dizer que isso também vai passar? “Jogar para debaixo do tapete” esta parte da nossa inglória história? Sabemos que a questão é muito complexa e só o Espírito Santo, que gera vida e conversão, pode nos ajudar.

Foto: Vatican News

A Ave-Maria

Mesmo não sendo a mais antiga oração mariana, a Ave-Maria é a oração mais recitada no culto à Mãe de Deus. Suas origens remontam à liturgia oriental no fim do século IV, que uniu a saudação do anjo com as palavras de Isabel, formando uma breve antífona. No Ocidente, antes do ano 1000, encontramos essa oração como antífona do ofertório da missa do IV Domingo do Advento, da quarta-feira do Advento e da festa do dia 25 de março.

Fora do contexto litúrgico, essa versão primitiva da Ave-Maria, que contava apenas com o que conhecemos como sua primeira parte, teve como grande propagandista São Pedro Damião († 1072). Somente no século XII que o povo assimilou essa prece como algo de sua constante expressão de fé, atribuindo-se ao Papa Urbano IV (1261-1264) a conclusão com o nome de “Jesus”.

Encontramos os resquícios mais remotos da segunda parte da Ave-Maria em um breviário dos monges cartuxos dos séculos XIII e XIV. Num dos sermões de São Bernardino de Sena, proferido em 1427, lemos as palavras: Sancta Maria, Mater Dei ora pro nobis. Num breviário romano dos séculos XIV e XV, encontramos também o complemento com o acréscimo das últimas palavras: ora pro nobis nunc et in hora mortis nostrae. Amen.

Pedimos que Maria nos acompanhe com seu amor materno em cada instante de nossas vidas, mas sobretudo naquele que se coloca diante de nós como o mais incerto e frágil de todos, a hora de nossa morte. Mesmo sendo a morte uma realidade conatural à nossa humanidade, e que pela dimensão da fé não é o fim da vida, ela é a condensação de todos os nossos temores numa única situação. Nisso se encontra um dos motivos de muitas pessoas terem medo da morte. Logo, a invocação da figura protetora e amorosa da mãe, sobretudo a Mãe de Deus e nossa nessa hora, provoca uma onda de encorajamento, pois é um convite à entrega, ao absoluto amor misericordioso de Deus.

Nesse sentido, é muito interessante o que G. Roschini nos diz sobre a palavra “mãe”: “É a primeira que brota dos lábios e, geralmente, é também a última que aí se extingue, pois se observa frequentemente nos moribundos este fenômeno psicológico: a invocação de sua mãe”.

Quando um paciente está para morrer por covid-19, ele se encontra sozinho. Ao seu redor se encontram heroicas pessoas lutando por sua vida, mas encobertas por necessárias roupas e óculos protetores. Mas, quem lhe segurará a mão dando-lhe o último calor humano? A Mãe. Ela, “na hora da nossa morte”, está presente, como tanto pedimos em cada Ave-Maria. E dela temos o último calor humano que nos conduzirá à vida eterna.

Salve-Rainha

No contexto desta epidemia, essa oração mariana torna-se muito peculiar, o que justificamos a partir dos verbos “bradar”, “suspirar”, “gemer” e “chorar”, que denotam, poeticamente, a intensidade com que os fiéis rogam à Virgem Maria sua intercessão, o que lembra o sentimento de todos nós neste tempo de pandemia, que pode ser visto, também, como um “vale de lágrimas”.

A composição da oração “Salve Rainha” é atribuída a Hermano, o Contrato († 1054), mas há outros possíveis autores, como: Pedro de Mezonzo († 1000), bispo de Compostela; e Ademar de Monteil († 1098), bispo de Le Puy-en-Velay. A piedade medieval acrescentou o termo “Mater” no primeiro verso da oração bem como “Virgo” no último. Em 1135, já encontramos estabelecido o costume de se cantar a Salve-Regina como hino processional no Mosteiro de Cluny.

Podemos dizer que, depois da Ave-Maria, a Salve-Rainha é a oração mariana mais rezada e conhecida. Essa oração começa com uma saudação que nos ajuda a compreender como se via Maria no século XI e em toda a Idade Média, em que a Salve-Rainha se difundiu com vigor, tanto nos mosteiros como na vida dos leigos. Maria é Regina misericordiae, como também Regina, mater misericordiae. Ao termo “Rainha” são adicionados os adjetivos vita, dulcedo et spes nostra. Podemos dizer que Maria não é vista como uma rainha tirânica, distante do povo e que lhe causa medo, mas sim como uma rainha de ternura e amor, é vista também com amor e ternura por ser “mãe de misericórdia”.

Também é feita outra referência à misericórdia de Maria ao se pedir que ela volte seu olhar misericordioso para aqueles cuja defesa ela assume. Aquela que se compreende como uma serva de Deus e que teve o olhar do Altíssimo posto sobre si mesma em sua humildade (cf. Lc 1,48) agora é convidada a olhar para os que clamam por ela.

A partir dessa impostação inicial da Salve-Rainha é que se apresenta o “como” as pessoas se voltam para a Mãe Misericordiosa, ou seja, com brados, “gemendo e chorando”. Essa forma de recorrer à Virgem nos soa como a de alguém que se encontra em aflição ou, como diz o texto, são os “degredados filhos de Eva” que vivem num “vale de lágrimas”. Seja por aflição ou por participarem da sorte de Eva, no que se refere ao pecado, a oração é um grito confiante de socorro.

Tanto a aflição como o pecado nos colocam diante de sérias consequências. Por isso, devido a sua realeza e sua maternidade misericordiosa, Maria é clamada como “advogada nossa”. No contexto feudal, como nos dias de hoje, o advogado é o que garante proteção jurídica contra os inimigos. Assim, encontramos a manifestação de que Maria se compadece dos seus e assume a causa deles.

Atualmente, é muito questionada a ideia da vida como um “vale de lágrimas”. Teme-se que pensar a vida como um exílio de sofrimento gere conformismo nas massas predominantes esmagadas pela injustiça e conformismo, baseadas na esperança de que, na vida eterna, tudo acabará. Também se pode pensar que, pelo fato de dor e sofrimento fazerem parte da condição humana, se esqueça de que a alegria e a felicidade também o fazem. Por outro lado, não podemos ignorar que, para muitos, é difícil encontrar alegria e felicidade em meio a situações de morte e medo em que muitas pessoas se encontram ameaçadas todos os dias.

Cemitério Parque Tarumã, Manaus-AM – Foto: Marcelo Camargo (Ag. Brasil)

Também, quem seria capaz de negar a semelhança que o termo “vale de lágrimas” comporta quando encontramos imagens de imensos espaços abertos que, às pressas, foram cavados para enterrar pessoas? Pensemos nas imagens do Cemitério de Manaus e outros espalhados pelo Brasil e pelo mundo. Ou ainda, não ver esse “vale de lágrimas” quando se abre uma vala comum em que se depositam caixões, um ao lado do outro, inclusive, negando a possibilidade de um velório em que se possa despedir da pessoa amada?

Definitivamente, a vida não é um “vale de lágrimas”, mas todos nós, viventes, atravessamos esse vale em diversas circunstâncias. E mesmo que, em determinados momentos da vida, a expressão não nos diga absolutamente nada, é preciso olhar para os que vivem nesse “vale de lágrimas” e, como o bom samaritano, ter compaixão. Voltar-se à Mãe de Misericórdia com verdadeira devoção é assumir o compromisso de sermos misericordiosos como nosso Pai é misericordioso (cf. Lc 3,36).

Conclusão

A Virgem Maria nunca nos abandonou. Em seu múnus materno, intercede a Deus por todos nós. No Espírito Santo, estamos unidos com a Mãe de Jesus pela oração, no que denominamos de “Comunhão dos Santos”. Estamos unidos, vivos e mortos, santos e pecadores, testemunhas da santidade de Deus e penitentes, num “laço de fraternidade” muito estreito, que é o próprio Espírito Santo que nos leva a rezar.

E a oração nunca serve para que Deus faça a nossa vontade. Isso é um absurdo! A oração, pelo diálogo amoroso da Criatura com o Criador, nos leva a querer fazer a vontade de Deus, mas para isso é necessário o dom da fé. E, novamente, o mesmo Espírito que nos une, nos faz rezar e também nos dá o dom da fé. E, por fim, a fé nos incute coragem.

Gostaríamos de tomar a cidade de Cartago no século III como um exemplo. Logo após a perseguição de Décio (250-251), a cidade é duramente provada com a irrupção de uma terrível epidemia. Diz-se que:

“A população perdeu a cabeça, e o terror causado pela aparição da peste era tal que, muitas vezes, quando numa habitação alguém era atingido pelo mal, os próprios parentes ou patrões, pressurosos em evitar o contágio, o lançavam à rua e o abandonavam à própria sorte.”

Diante disso, o bispo da cidade, Cipriano, escreve uma carta convocando o povo a não perder a fé diante do que ameaça a vida, pois “somos pela morte conduzidos à imortalidade”.

Também diz que:

“Quando, portanto, irromper uma calamidade, uma fraqueza ou enfermidade, então nossa força se aperfeiçoará, então a fé, que perseverou na tentação, será coroada, conforme está escrito: ‘O vaso se prova na fornalha, e os justos, no sofrimento da tribulação’” (Eclo 27,5).

Queremos, mediante a fé, superar este tempo de pandemia e sermos pessoas melhores. Cremos que o Senhor nunca nos abandonará. Caso o “entardecer” (cf. Mc 4,35) nos alcance e nos vejamos em terrível tempestade, devemos ouvir o Senhor nos questionar: “Por que sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?” (Mc 4,40).

Nessas horas, elevemos nossos olhos ao Cristo crucificado, Árvore da Vida, e à sua Santa Mãe, e peçamos ao Pai, pelo Espírito Santo, o dom da fé. A devoção mariana, especificamente neste momento, é a expressão de que cremos que não estamos desamparados, mas precisamos de fé para em tudo fazer o que Jesus nos disser (cf. Jo 2,5).

Referências

AMATO, Angelo. Maria la Theotokos. Conoscenza ed esperienza. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2011.

BOFF, Leonardo. A Ave-Maria. O feminino e o Espírito Santo. 7. ed. Petrópolis: Vozes, 2003.

CIPRIANO de Cartago. Obras Completas I. São Paulo: Paulus, 2016.

FRANCISCO, papa. Homilia do dia 27 de março de 2020. Disponível em: <https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-03/papa-francisco-homilia-oracao-bencao-urbe-et-orbi-27-marco.html>. Acesso em 30 maio / 2020.

GEBARA, Ivone; BINGEMER, Maria Clara L. Maria, mãe de Deus e mãe dos pobres. Um ensaio a partir da mulher e da América Latina. Petrópolis: Vozes, 1987.

MAGGIONI, Corrado. Bendetto il frutto del tuo grembo. Due milleni di pietà mariana. Casale Monferrato: Portalupi Editore s.r.l., 2000.

MONJAS BENEDITINAS. A MORTALIDADE – INTRODUÇÃO. In: CIPRIANO de Cartago. Obras Completas I. São Paulo: Paulus, 2016.

ROSCHINI, Gabriel. Instruções marianas. São Paulo: Paulinas, 1960.

(Texto publicado no site do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – https://www.cnlb.org.br/?p=4868)

Reconstruir a esperança

17/04/2020

As feridas expostas da sociedade mundial, suas pandemias, sinalizam enorme desafio: reconstruir a esperança. Entre as chagas enfrentadas pela civilização contemporânea está um generalizado estado de desolação – falimento da esperança. Contundente é a interrogação que requer urgente resposta: o que se pode esperar? E no desafio inscrito nessa pergunta, outro questionamento é recorrente: em quem confiar? O desafio existencial de se encontrar sentido na vida soma-se ao grave problema de saúde da atualidade, a covid-19. A busca pelo sentido da vida – embora tratado na superficialidade do bem-estar e das futilidades alimentadas pela ganância do dinheiro, da busca mesquinha  por conforto – remete todos à questão central da própria existência. Lá, neste ponto de partida e de chegada, está o nascedouro da esperança, o lugar onde cada pessoa encontra os fundamentos para se reconstruir e, ao mesmo tempo, aproximar-se da plenitude.

A humanidade, ancorada em muitos avanços tecnológicos e científicos, admiráveis, mas alheia aos valores humanísticos, revela o seu despreparo para realizar, com a necessária eficiência, sua tarefa primordial – reconstruir a esperança.  E reverter esse déficit geral na qualificação humanística exige alcançar a indispensável dimensão da espiritualidade, ainda com tão pouco espaço no conjunto de reflexões e pensamentos sobre a condução do desenvolvimento da sociedade mundial. De modo pontual, aparecem grupos que se referem à espiritualidade e, sem proselitismos, com profundidade transformadora, apresentam práticas que ajudam a cultivar rica cosmovisão, contribuição significativa para construir um mundo melhor.

Mas a essencialidade da espiritualidade ainda não assomou ao seu adequado lugar, mesmo quando se requer a gênese de um novo tempo para a humanidade. E quando se diz que o mundo não poderá ser o mesmo depois da pandemia da convid-19, pensa-se pouco sobre o papel decisivo da espiritualidade. Corre-se o risco de acreditar que basta simplesmente descobrir nova lógica para a economia, sem considerar os equívocos atuais. Ora, essa nova lógica no contexto econômico, para superar o domínio perverso do lucro e da idolatria do dinheiro, que se desdobra em consumo ilimitado e nos hábitos egoístas, na desconsideração dos pobres, requer profunda espiritualidade, eivada de humanismo, mística e sentido de transcendência.

O distanciamento humano da espiritualidade resulta também em graves prejuízos para o meio ambiente. Os recursos naturais são usufruídos de maneira extrativista e depredadora, o que faz crescer a miséria e os desequilíbrios em todo o planeta. Com isso, a humanidade inteira sofre as consequências, a exemplo desta pandemia do coronavírus, que ameaça todos, sem distinção de status social ou nacionalidade. Não se passará a uma nova página da história sem que o mundo vivencie profunda espiritualidade, oportunidade para verdadeira transformação social. Isto exige que a humanidade valorize a experiência da contemplação e da mística, caminhos para a reconstrução da esperança, alicerce de um novo modo de viver.

Importante ressaltar: há um caminho que se camufla de autêntica espiritualidade, e ao invés disso centra-se na vaidade, objetiva exclusivamente a arrecadação e o acúmulo de poder. Manipula até mesmo a Palavra de Deus. A pandemia que a humanidade enfrenta desmascara esses religiosos que difundem conceito equivocado sobre a fé, oferecida por eles como solução mágica para problemas. Incapazes de solucionar uma ameaça real e complexa, se calam, comprovando que, diferentemente de suas promessas, não têm o poder de realizar milagres – Deus não se deixa manipular.  Há, ainda, os religiosos que promovem espetacularizações, teatralizações, evidenciando, também, despreparo espiritual e místico. A seu modo, também oferecem soluções mágicas para problemas complexos.

Percebe-se um despreparo geral, fruto da carência de uma espiritualidade profunda capaz de alimentar e reconstruir a verdadeira esperança. Consequentemente, proliferam os que promovem e os que buscam invencionices, bem distantes da riqueza do mistério da fé. Os que se apegam às invencionices ficam ao redor dele, o rodeiam, mas mesmo diante da fonte, acabam por morrer de sede e de fome.  Apegam-se à ilusória sensação de que a esperança se reconstrói e se fortalece com certos espetáculos e práticas inoportunas ou descontextualizadas. É preciso retomar a direção de uma qualificada espiritualidade. O primeiro passo é vivenciar a oração, que requer o silêncio, o salutar incômodo de se observar, contemplando a própria interioridade, única garantia para o autêntico encontro com Deus. Uma vivência da oração bem diferente de práticas devocionalistas, que produzem sensações efêmeras e momentaneamente geram certo conforto e bem-estar.

A construção da nova realidade que todos almejam exige longo caminho de aprendizagens, em que o essencial é reconstruir a esperança, alicerçada na espiritualidade daqueles que sabem orar, de verdade, para além de simples ritos ou de palavras. Contemplação e interioridade, pilares fundamentais da fé e da prática cristã autêntica, são imprescindíveis. Possibilitam alcançar nova sabedoria, enxergar os rumos novos exigidos pelos desafios atuais, a partir da vida interior. A verdadeira oração é essencial na reconstrução da esperança.

Todos reconheçam: mesmo que ninguém ouça, ou mesmo quando não se tem alguém com quem falar, Deus sempre está presente. Ele sempre ouve, com Ele pode-se sempre falar. Deus ajuda quando a capacidade humana está esgotada e sem condições para amparar. Mas poucos sabem escutá-Lo.  Esperar Nele para superar os desesperos e tornar-se fonte de sabedoria para ajudar a consertar o mundo. A reconstrução da esperança requer a escuta de Deus, como sustento, tocando a interioridade, para qualificá-la, fazendo, de cada pessoa, testemunha fidedigna da esperança, protagonista neste processo de renovação da humanidade.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB)

Ilustração: Jornal Estado de Minas